Noções dos Pais Acerca das Doutrinas Reformadas

John Gill, teólogo batista inglês, escreveu um livro: Por Deus e a Verdade, o qual é dividido em quatro partes, nas três primeiras partes explica os textos da Bíblia que dão alguma noção de livre-arbítrio, perda de salvação etc… Na quarta e última parte, procura nos Pais da igreja trechos de seus escritos onde há alguma noção das doutrinas da graça, como Perseverança Final dos Santos, por exemplo. Bem, ainda não li todo o livro, fiz uma leitura parcial e a esmo. Ainda assim, as três primeiras partes do livro que trata sobre os versículos, achei muito boa. Já a última parte, achei no mínimo interessante. John Gill foi um teólogo muito capaz, seu entendimento em hebraico foi fenomenal. Creio que a intenção de Gill foi desmantelar a ideia vendida por romanistas e outros amantes do livre-arbítrio de que os pais não tinham noções das doutrinas da graça defendidas pelos Reformadores protestantes e seus descendentes. John Gill demonstra com muitas citações dos Pais que eles tinham, sim, conhecimento, embora em muitas nuvens.

Calvino, nas Institutas, nos  conta sobre a dubiedade dos Pais sobre essas questões:

“parecerá a alguns que estou a agindo com grande preconceito quando declaro que todos os doutores eclesiásticos, exceto Agostinho, falaram tão dúbia ou voluvelmente sobre este assunto, que nada se pode colher com certeza da sua doutrina. Entendem isso como se eu os rejeitasse tão-somente porque me são contrários. Mas na verdade, meu único objetivo é simplesmente advertir os leitores, para o bem destes, do que acontece neste contexto, para que não esperem demais daquilo que ali encontrarem. É que estão sempre na incerteza, visto que , num dado momento, despojado o homem de toda virtude ou poder, ensinam que ele deve buscar refúgio unicamente na graça de Deus. E noutra ocasião, lhe atribuem alguma faculdade ou poder, ou ao menos parecem atribuir-lhe. Todavia, não me é difícil fazer parecer, por algumas das suas sentenças, que, qualquer ambiguidade que acaso haja em suas palavras, não obstante, eles consideravam sem nenhum valor as obras humanas, ou ao menos pouco valor lhe davam, canalizando todo o louvor para as boas obras do Espírito Santo. Pois, que outra coisa quer dizer esta sentença de Cipriano, tantas vezes citada de Agostinho: “Não temos por que nos glorificar, porque não existe nenhum bem que seja nosso”? Sem dúvida, ele anula tudo do homem, a fim de que este aprenda a buscar tudo em Deus”.

E continua, Calvino:

“Algo semelhante se vê no que disse Euchère, antigo bispo de Lião: “Cristo é a Árvore da vida; quem estender a mão para ela viverá; e a árvore do conhecimento do bem e do mal é o livre-arbítrio; quem dela provar morrerá”. Também o que diz Crisóstomo: “O homem não somente é pecador por natureza, mas não é senão inteiramente pecado”. Se não existe bem algum em nós, se, da cabeça aos pés, o homem nada mais é que pecado, se nem sequer é lícito que ele queira o livre-arbítrio, como lhe será lícito repartir entre Deus e o homem o louvor das boas obras? Eu poderia apresentar aqui, de outros pais, muitos outros testemunhos semelhantes, mas, para que ninguém possa ironizar dizendo que só escolhi o que atende ao meu propósito, deixando de lado o que poderia prejudicar-me, abstenho-me de alongar as minhas citações. Não obstante, ouso afirmar o seguinte: Embora, por vezes, eles exaltem um tanto o livre-arbítrio, sempre tendem a buscar como objetivo afastar o homem da confiança em sua própria virtude, ensinando-lhe que todo o seu poder está unicamente em Deus“.

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